Política
Atacar vale a pena? O limite da destruição de reputações e a conta que chegou nas urnas

Durante a corrida pelo Governo do Rio Grande do Norte, o debate eleitoral foi frequentemente puxado das propostas para o esgoto dos velhos escândalos. Uma das armas mais pesadas utilizadas pela campanha e pela infantaria midiática ligada ao ex-prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, foi o resgate incansável do fantasma da “Máfia dos Sanguessugas”. Uma mira direcionada à família Rosado por conta do ex-deputado Laíre Rosado, pai de Larissa Rosado, então candidata a vice-governadora.
A tática de desenterro não era inédita. Foi com o discurso do “novo contra o velho”, do combate à oligarquia e das críticas ácidas ao grupo de Rosalba Ciarlini que Allyson Bezerra se projetou, venceu a prefeitura de Mossoró e se reelegeu.
Durante todo o seu mandato no Palácio da Resistência, a narrativa da moralidade e a exposição de adversários serviram de combustível diário para veículos de imprensa e influenciadores alinhados à sua gestão.
No entanto, o resultado do segundo turno estadual escancarou os limites dessa estratégia. O massacre reputacional, que funcionou nos limites de Mossoró, não garantiu a vitória para o Governo do Estado.
A insistência na demonização da família Rosado e no linchamento virtual de figuras políticas locais cansou parte do eleitorado e não foi capaz de cobrir os buracos da própria campanha. A começar pela neutralidade em cima do muro que acabou lhe custando a eleição.
A eficácia e o custo humano da política do linchamento
O episódio reabre um debate ético e pragmático no jornalismo e na ciência política: até que ponto vale a pena desidratar a imagem de adversários e jogar a opinião pública contra famílias inteiras em troca de dividendos eleitorais?
A estratégia do ataque ostensivo costuma entregar ganhos rápidos no curto prazo, pois explora a indignação do eleitor. Contudo, quando transformada em método permanente de governo e propaganda, ela gera dois efeitos colaterais devastadores:
Retornos decrescentes: A repetição exaustiva da mesma pauta enfada o eleitor, que passa a enxergar a manobra como pura perseguição ou falta de propostas concretas para o futuro.
Adoecimento do debate público: Destruir pontes e incitar o ódio contra clãs ou indivíduos inviabiliza composições e cobra seu preço nos momentos em que o político precisa construir maiorias para além de sua bolha.
A conta que fica nos bastidores
Hoje, com o poeirão da apuração baixado e a derrota confirmada nas urnas estaduais, fica a provocação que ecoa nos bastidores da política potiguar: o ex-prefeito de Mossoró e a mídia que orbitou sua gestão dormem com a consciência tranquila?
Derrubar reputações, alimentar tribunais da internet e estigmatizar parentes de adversários podem ter rendido aplausos e curtidas na bolha militante. Mas, na hora em que o eleitor do RN precisou decidir quem tinha envergadura para governar o Estado, a estratégia do ataque contínuo mostrou sua fragilidade.
O “canhão” da comunicação agressiva mirou no passado, mas acabou acertando o próprio futuro político de quem o disparou.