Política
O TRUQUE DOS “VOTOS VÁLIDOS”: COMO SE CONSTROEM LÍDERES ONDE NÃO HÁ MAIORIA
Existe uma prática metodológica legítima no campo das pesquisas eleitorais, mas que, quando mal comunicada à opinião pública, funciona como um distorsor de realidade. A apresentação dos resultados em votos válidos, isto é, excluindo indecisos, brancos e nulos do denominador do cálculo.
O efeito prático é dramático. Na pesquisa do Instituto Veritá publicada em 9 de maio, Álvaro Dias aparecia com 36,9% dos votos válidos.
Parece uma liderança confortável. O mesmo número, incluindo todos os entrevistados, cai para 29,9%. Ou seja, menos de um terço do eleitorado real. Os 19,1% de indecisos simplesmente desaparecem da manchete.
DISTORÇÃO DE LEITURA
Quando um instituto apresenta “36,9% dos votos válidos” sem esclarecer que 19% do eleitorado não está computado nesse número, ele cria uma percepção de solidez eleitoral que os dados totais não sustentam. A convenção é legal, mas a falta de contextualização é eticamente problemática.
E o que é mais grave é que as pesquisas telefônicas automatizadas, metodologia adotada pelo Instituto Affare, consistentemente registram os menores percentuais de indecisos de todo o período.
Na pesquisa de 22 de maio, apenas 12,5% do total ficou sem candidato definido. Nas demais rodadas do mesmo período, outros institutos apontavam entre 19% e 31,7%. Essa divergência não é marginal — é estrutural.
A pesquisa por telefone automatizado tende a subnotificar a indecisão por um motivo simples: o entrevistado, ao ouvir um robô e ser pressionado a escolher um número no teclado, tende a indicar qualquer nome para concluir a chamada.
O custo cognitivo de dizer “não sei” é maior nesse formato do que em entrevistas presenciais ou com entrevistador humano.
A pesquisa não é um espelho. É uma fotografia tirada com câmeras diferentes, em ângulos diferentes, em dias diferentes. Quando seis fotógrafos mostram imagens radicalmente distintas do mesmo rosto, o problema não está no rosto.