Política
O QUE OS NÚMEROS REVELAM QUANDO LIDOS EM CONJUNTO

Inversão de liderança de 18,6 pontos em uma semana
Na última semana de março, dois institutos divulgaram pesquisas com apenas três dias de diferença. O Data Ranking/Fonte83 (29/mar) colocou Allyson na frente com 39,2%. A Media Inteligência (29/mar) colocou Álvaro Dias liderando com 30,8%.
A diferença entre os primeiros colocados dos dois levantamentos, feitos no mesmo período e com o mesmo eleitorado, supera 18 pontos percentuais. Isso não cabe em margem de erro. Indica problemas metodológicos graves em pelo menos um dos institutos, possivelmente nos dois.
Metadata de abril e Metadata de maio: o mesmo instituto, resultados opostos
Em 1º de abril, o Metadata/Grupo Dial colocou Álvaro Dias na liderança com 37,2% e Allyson com 28,8%, diferença de 8,4 pontos. Em pesquisa de campo realizada de 7 a 9 de maio pelo mesmo instituto, a posição inverteu: Allyson passou à frente com 35,5% e Álvaro recuou para 22,9%.
Uma oscilação de quase 15 pontos no candidato que liderava em menos de 40 dias, num eleitorado de 2,6 milhões de pessoas, sem nenhum evento político estruturante que justifique tamanha mudança, é, no mínimo, um sinal de alerta metodológico.
A pesquisa de janeiro usava um candidato que já não está na corrida
O Affare/Interjato de 23 de janeiro foi realizado de 8 a 12 de janeiro, portanto antes da oficialização das candidaturas. Rogério Marinho, que liderava o cenário 1 com 26,8%, retirou sua pré-candidatura ao governo para coordenar a campanha presidencial do PL.
O levantamento foi divulgado como se refletisse o cenário atual, sem qualquer contextualização sobre a instabilidade do quadro candidatário àquele momento. A manchete circulou como se Marinho fosse um competidor real.
Metodologias radicalmente distintas, resultados apresentados como equivalentes
Entre as dez pesquisas, há entrevistas presenciais em 55 municípios (TN/Consult), chamadas telefônicas automatizadas (Affare), entrevistas por telefone com operador humano e variações de tamanho amostral de 1.000 a 2.000 pessoas.
Nenhum veículo de comunicação contextualiza essas diferenças ao divulgar os números. O eleitor lê “pesquisa diz que X lidera” como se todas as pesquisas fossem equivalentes entre si.
Cadu Xavier: de 4,2% a 28,3% no mesmo período — candidato ou artefato metodológico?
Em janeiro (Affare/Interjato), Cadu Xavier aparecia com 4,2%. Em maio (Veritá), chegou a 28,3% dos votos válidos — próximo do segundo colocado. A trajetória de crescimento do candidato petista é real e documentada, mas a amplitude da variação entre institutos sugere que parte desse número é sensível ao tipo de pergunta feita, à ordem dos nomes no cartão apresentado ao entrevistado, e ao perfil da amostra. Nenhuma pesquisa esclarece como os nomes foram ordenados.
Contratantes com interesse declarado nos resultados?
Das dez pesquisas analisadas, pelo menos duas foram contratadas por veículos ou grupos com vinculação política declarada: a pesquisa Affare de maio foi encomendada pelo jornal NOVO, publicação de oposição ao governo estadual.
A TN/Consult foi contratada pela Tribuna do Norte. A legalidade não está em questão, a Lei das Eleições exige o registro do contratante. Mas a ausência de debate público sobre quem paga e por que é uma lacuna de transparência que a cobertura jornalística convencional raramente preenche.
O acerto metodológico da Veritá de abril: apresentar os dois números
A pesquisa Veritá de 8 de abril merece registro positivo por apresentar dois recortes distintos. O cenário de votos válidos e o cenário geral com indecisos incluídos. Essa dupla apresentação é a prática correta e permite ao leitor entender a real dimensão da indefinição do eleitorado.
É a exceção numa série de pesquisas que, em sua maioria, enterram os indecisos numa linha de rodapé.