Gerais

A CAMPANHA ELEITORAL VIRA LICENÇA PARA FAZER O QUE QUISER?

Por em 13 de setembro de 2026 às 11:48:58

Motociclistas sem capacete, escapamentos adulterados, manobras perigosas, menores pilotando e um barulho infernal. A pergunta é simples: durante a eleição, a lei deixa de valer?

Sem placa, capacete e dando grau em meio a festejos de Natal de Itabirito: GCM prende 1 e remove moto

Chegou a época das carreatas e motociatas. E, pelo que se vê nas ruas, chegou também a temporada em que o bom senso, o Código de Trânsito e a fiscalização parecem entrar de férias. É moto sem capacete, escapamento adulterado fazendo um barulho que atravessa quarteirões, motociclista empinando veículo como se estivesse em um espetáculo, menor de idade pilotando e gente trafegando de maneira irresponsável.

Tudo isso em nome da festa eleitoral, como se colocar um adesivo de candidato na camisa ou na moto transformasse infração em manifestação democrática. Não transforma. Campanha eleitoral não cria território livre para a lei.

E aqui é preciso ser justo com os candidatos. Nenhum deles tem como controlar cada pessoa que aparece numa carreata. Não são policiais, agentes de trânsito nem fiscais. Não podem parar uma moto, exigir documentação ou aplicar uma multa. Mas também não vamos fingir que uma campanha é uma reunião de desconhecidos que simplesmente apareceram na rua.

Existe coordenação, organização, lideranças, apoiadores, divulgação, roteiro e comando político. Portanto, existe também a possibilidade de orientar. Um candidato pode dizer aos seus apoiadores que não quer motos sem capacete, condenar manobras perigosas, pedir que ninguém perturbe moradores e deixar claro que sua campanha não precisa transformar a cidade em uma mistura de pista de corrida com trio elétrico. Pode. E deveria.

Mas a responsabilidade principal pela fiscalização é outra: é do poder público. E aí começa a parte realmente difícil de entender. Como é que uma moto passa sem capacete? Como é que um menor conduzindo um veículo circula no meio de uma multidão? Como é que escapamentos adulterados fazem um barulho ensurdecedor durante quilômetros? Como é que motociclistas empinam motos em via pública e continuam seguindo normalmente? Onde está a fiscalização?

O cidadão comum, aquele que usa sua moto para trabalhar e é parado quando está sem algum documento, conhece muito bem a existência da lei. O motorista que estaciona onde não deve também conhece. Mas, quando aparece uma carreata ou uma motociata política, parece surgir uma curiosa zona de tolerância. Será medo de enfrentar uma multidão? Conveniência? Falta de efetivo? Alguma orientação para não criar desgaste político? Não sabemos. E justamente por não sabermos, a pergunta precisa ser feita.

Porque há outro detalhe que deveria constranger muita gente envolvida nessas campanhas. Os mesmos candidatos que passam meses dizendo que defendem os autistas, os idosos e a causa animal precisam lembrar que essas pessoas também existem quando a campanha sai às ruas.

O idoso que se assusta com uma explosão de escapamento existe. A pessoa autista com hipersensibilidade sonora existe. A família que precisa lidar com uma crise provocada por estímulos sonoros existe. E o cachorro que entra em pânico com o estrondo das motos também existe. No palanque, essas pessoas são eleitoras. Na rua, continuam sendo seres humanos que merecem respeito.

É aí que a coisa fica especialmente hipócrita. É muito fácil gravar um vídeo abraçando uma mãe de uma criança autista. É fácil posar ao lado de uma causa animal. É fácil prometer políticas públicas para idosos.

Difícil parece ser lembrar dessas mesmas pessoas quando chega a hora de acelerar a moto, abrir o escapamento e sair fazendo barulho pela cidade. A causa do autista vale no discurso, mas perde a validade quando começa a motociata? A causa animal vale até o momento em que o cachorro se assusta? O respeito ao idoso vale somente quando há câmera ligada?

Manifestação política é legítima. Carreata é legítima. Motociata também pode ser legítima. O que não é legítimo é usar a política como salvo-conduto para o abuso. E muito menos esperar que a população aceite tudo calada porque “é época de eleição”. Não é. A eleição dura algumas semanas. A cidade continua existindo. As pessoas continuam morando nas casas. Os idosos continuam dormindo. Os autistas continuam lidando com seus estímulos. Os animais continuam sentindo medo. E as leis continuam escritas. Ou deveriam continuar sendo aplicadas.

No fim das contas, a pergunta mais incômoda talvez nem seja para os candidatos. É para as autoridades: por que, quando a bagunça vem acompanhada de bandeira partidária, tanta gente parece esquecer que tem obrigação de fiscalizar? Porque se a lei vale para um, precisa valer para todos. Inclusive para quem está fazendo campanha.

Democracia não é vale-tudo. Eleição não é salvo-conduto. E respeito também se pratica fora do palanque.

Imprimir
TAGS

DEIXE UM COMENTÁRIO

Arquivos