
Tem uma guerra declarada entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Mossoró. O campo de batalha escolhido por ambos os lados é a saúde pública. E isso, convenhamos, diz muito sobre os dois. Não sobre a saúde. Sobre os dois.
Porque se a saúde fosse, de fato, a prioridade, e não o pretexto, ninguém estaria gastando saliva em disputa de narrativa enquanto o sistema range.
Alexandre Motta, infectologista e secretário de saúde do Estado, foi direto ao ponto. Disse que Mossoró inaugurou como "hospital" é, na prática, uma policlínica. Mudou o nome, não mudou a estrutura. A crítica tem fundamento técnico. Policlínica e hospital são coisas distintas, em capacidade, em complexidade, em obrigações legais. Chamar uma coisa de outra não transforma a realidade. Só muda o outdoor.
O ex-prefeito de Mossoró e pré-candidato ao Governo do Estado, Allyson Bezerra, o alvo implícito da crítica, construiu boa parte do seu capital político recente em cima dessa inauguração. Se o secretário estadual tem razão, e os critérios técnicos sugerem que tem, o que foi vendido ao eleitor mossoroense como grande conquista precisa de reavaliação. Não é detalhe. É o centro da promessa.
Do outro lado, Morgana Dantas, titular da Saúde de Mossoró, saiu em campo para contra-atacar. Chamou Alexandre Motta de pior secretário estadual, trouxe uma enxurrada de indicadores e defendeu com unhas e dentes o equipamento municipal.
Acontece que Morgana Dantas não está em posição confortável para conduzir esse debate. Ela é o nome central da Operação Mederi, investigação que apura irregularidades justamente na gestão da saúde de Mossoró. Não é acusação jornalística. É fato público, noticiado, documentado.
Uma secretária investigada por irregularidades na pasta que comanda não tem autoridade moral para se apresentar como referência de boa gestão. Pode ter números. Números, aliás, qualquer um escolhe quais apresentar.
A pergunta que Morgana não responde com planilha é outra, que a operação Mederi apontou a resposta.
No meio de tudo isso, existe uma verdade, onde um lado omite, o outro não, que é o Hospital Regional Tarcísio Maia que continua sendo a âncora da saúde da região Oeste. É ele que segura quando tudo o mais desaba. É para lá que a população corre quando a UPA não resolve, quando a policlínica-hospital não tem leito, quando o município não dá conta.
E o Tarcísio fica superlotado. Por quê? Porque os municípios ao redor, dezenas deles, não têm estrutura básica funcionando. Porque a atenção primária, que deveria resolver 80% dos casos antes de virar emergência, está sucateada em boa parte do interior.
Porque o Estado não distribui especialistas. Porque a regulação é um labirinto. Porque falta médico, falta remédio, falta gestão. O Tarcísio Maia superlotado não é falha do Tarcísio. É o retrato de um sistema que empurra para cima o que deveria resolver embaixo.
Esse dado estrutural, inconveniente, sem culpado único, nenhum dos dois lados da guerra de narrativa tem interesse em discutir. Porque discuti-lo exigiria assumir responsabilidades que nenhum dos dois quer. Um vai dizer, literalmente, que é responsabilidade apenas do outro.
O que o eleitor está assistindo, no fundo, é a uma disputa eleitoral travestida de debate técnico. Alexandre Motta representa um governo estadual que tem olho no protagonismo da saúde pública como bandeira para 2026. Morgana Dantas representa uma gestão municipal que precisa blindar o legado de Allyson Bezerra para mantê-lo competitivo na corrida ao Governo do Estado.
A saúde, nesse jogo, é moeda. É palco. É microfone. Quem paga a conta é quem não tem assessor de comunicação, quem não dá entrevista coletiva, quem não aparece no debate, que os microfones não alcançam, o paciente que acorda cedo, pega fila, espera, ouve que não tem vaga, vai embora com a mesma dor com que chegou.
Você que chegou até aqui precisa fazer a pergunta certa, não "quem tem razão nessa briga?", mas: por que essa briga está acontecendo agora, se esse problema é antigo?A resposta não está na saúde. Está no calendário.
A eleição que acontece em outubro está muito próxima. O interior do Rio Grande do Norte é eleitoralmente decisivo. Mossoró é a segunda maior cidade do estado. A saúde pública é o tema que mais mobiliza o eleitor de baixa renda, justamente aquele que mais usa o SUS e menos tem alternativa privada.
Nenhum dos dois lados está errado em tudo. Nenhum dos dois está completamente certo. Os dois têm interesse em que você escolha um lado, e esqueça de cobrar os dois.
Enquanto você toma partido, a fila do Tarcísio não diminui. A UPA não ganha mais médico. O interior não ganha especialista. O remédio não aparece na prateleira.
A saúde pública do Rio Grande do Norte, do estado como um todo, municípios incluídos, anda mal. Isso não é novidade, não é culpa de um partido só e não vai melhorar porque um secretário chamou o outro de incompetente na guerra de narrativas e espera que o algoritmo escancare isso para todos.
Vai melhorar quando você eleitor parar de aplaudir a narrativa e começar a cobrar o resultado. Sua saúde é sua. Sua fila é sua. Sua dor é sua.
A narrativa é deles. Cada um deles, defendem os seus (deles). Todos estão literalmente pinotando, para não perder aquilo que você sabe, mas não quer acreditar. Enquanto eles jogam (estão pinotando) para não perder o que você sabe, mas tem medo de admitir, você segue na fila esperando o básico que não chega. Quem deve acordar para essa realidade: eles ou você?













